Hutúz em clima de despedida




O clima é de festa e despedida. No ano em que comemora 10 anos, o Prêmio Hutúz, reúne os manos, as minas, muita música e um parabéns rimado, cheio de estilo, para celebrar seu aniversário e fazer sua despedida. E, foi no dia em que se comemora o dia da favela, dia 04 de novembro, que o Hutúz iniciou sua última festa.

Criado pela CUFA (Centra Única das Favelas), no dia 14 de novembro de 1999, consagrou-se como a maior premiação de Hip Hop da América Latina. Seu palco revelou muitos músicos do movimento brasileiro e reuniu artistas nacionais e internacionais em uma festa democrática, cultural e social.

Não basta uma idéia na cabeça....

O Prêmio Hutúz é mais que a realização de um sonho é o sucesso de uma iniciativa. Já que as idéias estão por aí, soltas ao vento e podem surgir na cabeça de qualquer um. Mas, são poucos que fazem a diferença e transformam idéias em iniciativas. E foi isso que o empresário Celso Athayde fez em 1999. O Prêmio Hutúz foi criado com o objetivo de mostrar, principalmente para os integrantes do hip hop, que é possível realizar grandes eventos. "Queríamos mostrar para as pessoas do hip hop que elas podem fazer coisas imponentes e com qualidade. Que é possível trazer patrocinadores, serem profissionais e se relacionarem com a mídia. Enfim, criar um mercado de verdade. E não mais ficar com um discurso ingênuo, que chega na maioria das vezes beirar a depressão. Hoje, podemos dizer que o rap, o hip hop, pode realizar coisas tão nobres quanto as que admiramos", explica o criador do Hutúz.

O rapper GOG, que já foi premiado seis vezes no Prêmio Hutúz, destaca algumas das contribuições que o evento trouxe para o hip hop brasileiro. "Foi muito importante o acesso a artistas, atores, atrizes e personalidades que passam por lá. Eu conheci o mestre Gerson King Combo no Hutúz! Outra é pela clara noção que o Hutúz nos deu de que tudo que se faz de forma organizada nasce com grande probabilidade de dar certo." afirma o rapper. O Prêmio Hutúz também é uma recompensa. O rap nacional ainda enfrenta tantos boicotes, tanto preconceito. Nada melhor, do que ser premiado pelo trabalho árduo que os artistas do hip hop brasileiro desenvolvem. " declara o rapper brasiliense. Quem também concorda com a opinião de GOG é Renan, do grupo Inquérito. "Um evento desse porte deu legitimidade e profissionalismo ao hip hop. Também deu reconhecimento, visibilidade e recompensa pelo nosso trabalho. “É como no carnaval, você trabalha o ano inteiro e desfila uma hora”, garante o rapper Renan do grupo Inquérito.

Com o passar dos anos o Hutúz se incorporou a realidade de todos aqueles que vivem o rap nacional. O ano do hip hop é marcado pela realização do Hutúz. A maioria já se organiza desde o inicio do ano para poder estar presente. Mandrake, que é diretor do Portal Rap Nacional e auditor do Hutúz, é uma dessas pessoas que se programa o ano inteiro para poder participar. "O Hutúz, acima de tudo, é uma grande confraternização! É muito bom encontrar amigos do rap nacional que estão espalhados por todo o Brasil e que se reúnem no Rio de Janeiro quando tem Hutúz", comenta Mandrake.

O Hutúz também premiou muita gente desconhecida. Grupos que viviam escondidos em suas cidades e que nunca sonharam em ir ao Rio de Janeiro, subir no palco e levar para casa uma prova do sucesso do seu trabalho. Em 2006, os integrantes do Rafuagi, de Esteio, no Rio Grande do Sul, é que tiveram essa experiência em suas carreiras. Eles se surpreenderem até com a indicação. “Eu estava em casa quando vi que estávamos entre os cinco indicados da categoria Melhor Demo Masculina. Liguei para todos familiares e amigos. Ficamos muito contentes!" relembra Rafael, que junto com THC, forma o Rafuagi.

Depois da euforia veio a realidade. Eles queriam muito estar presentes na entrega dos prêmios. Mas, precisavam arcar com todas as despesas. Então, começaram uma verdadeira maratona para conseguir o dinheiro necessário para viajar até o Rio de Janeiro. "Enviamos material para tv e jornais e conseguimos entrevistas em vários veículos de comunicação. Isso nos projetou, estávamos representando o estado para todo o Brasil. Conseguimos apoio financeiro da família e da Prefeitura e fomos para o Rio de Janeiro", conta Rafael. No Rio de Janeiro, eles ficaram na casa de uma amiga, já que a grana era curta. A experiência foi inigualável. Na época Rafael tinha 17 anos e era a primeira vez que saia do Rio Grande do Sul. Na noite da premiação, toda a nata do rap nacional se reuniu no Canecão. Para os garotos do sul, terem sido indicados já era um prêmio, estarem presentes e no meio de tantos ídolos, já era uma vitória. Mas, as realizações não pararam por aí. “Na noite da premiação estávamos na moral, sem muita esperança de ganhar. Mas quando a Marina Lima anunciou, o vencedor é: Rafuagi! Fomos à loucura, na nossa mesa estava o Nitro Di e o grupo Função RHK, foi muito "loko", uma emoção única.", conta eufórico o rapper gaúcho.

Assim como o grupo Rafuagi, vários outros grupos representaram seus estados nas premiações e provam que o hip hop é feito em todo o Brasil. E para o Norte e Nordeste, foi criada uma categoria especial. Segundo Celso Athayde essa segmentação ocorreu para valorizar aquela região e por iniciativa dos grupos locais. "Criamos a categoria norte/nordeste por ser uma região que precisava de incentivo para estar presente no cenário nacional e para dar volume a essa região. Do contrário repetiríamos os anos anteriores, aonde somente subiam no palco alguns poucos estados. Isso além de enfraquecer a relação nacional, desestimula quem faz um bom trabalho. A idéia era que quando essa região tomasse fôlego, a categoria fosse extinta. Outra razão foi a reivindicação que eles fizeram. Temos que ter sensibilidade nessa horas“, declara Celso Athayde.

Mas, não é possível agradar gregos e troianos. Para um dos vencedores nessa categoria, o rapper Don L do Costa a Costa, a iniciativa não foi tão boa assim. “Pra mim sempre soa meio como segunda divisão. Mas na época que surgiu acho que foi válido, pra que o próprio meio enxergasse o que tá sendo feito aqui em cima. Acho que seria mais interessante se eles olhassem pros grupos do Nordeste e indicasse quem merece ser indicado, mas nas categorias normais, competindo com todo mundo”, comenta Don L. A verdade é que o que se vê no palco do Hutúz é um reflexo do que o público está curtindo. E ainda, de uma maneira geral, são mais valorizados os rappers de São Paulo e Brasília. Durante a existência do Hutúz os principais prêmios foram destinados a artistas desses dois estados. Muitos ficaram de fora, algum merecedores extremos nem indicados foram. Por outro lado, muita gente boa levou o troféu. E tudo na vida é assim... Não se pode acertar sempre!

E aqueles que tiveram a honra de serem eleitos como o melhor do ano, seja em qual categoria for, sabem o gostinho que isso tem. E, o troféu acaricia o ego não só daqueles que estão começando, mas também de quem já tem uma longa caminhada no rap nacional. “Ser agraciado faz parte de uma estratégia maior, que é mostrar aos quatro cantos que a minha forma de atuar no cenário é viável e promissora”, afirma o premiado GOG, que sempre participou do Hutúz, mas nem por isso deixa de questionar algumas atitudes dos organizadores. “Tenho restrições a certas parcerias firmadas, mas tenho maturidade suficiente para saber que cada qual trabalha da forma que acredita ser mais viável”.

Outro grande nome do rap nacional que se emocionou muito com a premiação foi Dexter. Em 2005, ele levou o troféu de melhor álbum, com Exilado Sim, Preso Não. Como Dexter está detido, quem subiu no palco para receber o prêmio foi Mano Brown. "Não participei da festa pela condição a qual me encontrava, foi muito triste, porém a satisfação de ter ganhado o prêmio, e do trabalho ter sido reconhecido superou toda a tristeza. Toda moeda tem dois lados, às vezes não se pode ter tudo o que se quer. Combinamos que não só o Brown, mas todos os envolvidos no Cd subiriam no palco para me representar caso eu ganhasse. E foi exatamente o que aconteceu", comenta Dexter.

O Hutúz nasceu há 10 anos, cumpriu sua missão de mostrar um movimento organizado e de qualidade que valoriza seus artistas. E ficou para a história. Ninguém contará a história do movimento hip hop brasileiro sem falar do Prêmio Hutúz. Ele não agradou a todos, não teve só fãs e visões positivas. Mas, foi uma iniciativa que deu certo e irá se despedir deixando saudades. Para encerrar o ciclo da premiação vai ser realizada uma grande festa. Dessa vez vão ser eleitos não os melhores do ano, mas os três melhores da história do hip hop brasileiro. Faça parte da história. Entre no www.hutuz.com.br e vote também.


Entrevista exclusiva com Celso Athayde


Portal Rap Nacional: Como surgiu a idéia de criar o Hutúz?
Celso Athayde: A idéia surgiu naturalmente a partir de outras conquistas, um espaço aglutinador seria conseqüência natural para a construção de uma nova identidade do segmento. Eu diria que foi muito mais uma iniciativa do que uma idéia, pois as idéias estão sempre soltas por ai, na cabeça de muitas pessoas, o grande mistério está exatamente na iniciativa, fazer acontecer...


R.N.: Qual o objetivo do Hutúz?

Celso Athayde: Mostrar para as pessoas do hip hop que elas podem fazer coisas imponentes, com qualidade, trazer patrocinadores, serem profissionais, se relacionar com a mídia. Enfim, criar um mercado de verdade. E, não ficar com um discurso ingênuo que chega na maioria das vezes beirar a depressão. Hoje podemos dizer que o Rap, o Hip hop, pode realizar coisas tão nobres quanto as que admiramos.

R.N.: Você acha que nesses dez anos conseguiu atingir essa meta?


Celso Athayde: Em parte sim, se considerarmos que o Hutúz está acabando esse ano e os patrocinadores estão pedindo para eu não terminar, ou seja, se não estamos acabando por falta de apoio então conseguimos parte da meta, que é ter conquistado respeito, prestigio e credibilidade, se chegamos aos dez anos de vida. Então podemos dizer que no meio do hip hop também alcançamos isso, mas pra mim o que não conseguimos conquistar foi a melhora na qualidade dos grupos, isso não podemos fazer, a arte é algo que não podemos interferir.

Infelizmente o rap vem reproduzindo discursos e isso é pouco... É preciso praticar o que se prega, o hip hop não pode ser basear apenas numa voz afinada, o que diferencia um grande rapper, por exemplo, de um rapper medíocre , são as suas atividades, não a letra de sua música... E a suma de tudo isso transforma o ambiente em que vivemos... Eu não gostaria de deixar como legado para o hip hop da próxima década um monte de discursos equivocados, mas deixar exemplos práticos de mudança , deixar como legado a transformação real da vida de muitas pessoas , se for somente musica , então não é hip hop, é entretenimento...

R.N.: Como você conseguiu transformar o Hutúz na maior premiação da América Latina?

Celso Athayde: Estive em algumas premiações nos E.U.A, e nada do que vi me seduzia, então resolvemos criar algo que fosse clássico, mas uma coisa iria nos diferenciar de todos os outros eventos e premiações, esse diferencial seria e é o nosso sentimento,

R.N.: Porque o Hutúz vai acabar?

Celso Athayde: Porque ele já cumpriu o seu papel. Nesses dez anos muitos se revelaram, muitos de descobriram e muitos foram felizes. O Hutúz proporcionou muitos sorrisos e lágrimas nas pessoas, sabemos o quanto esse prêmio é importante e o quanto ele vai fazer falta. Por outro lado, a Cufa tem que ir realizar outros projetos, se não o prêmio se torna maior do que o próprio mercado. Agora é a vez do hip hop mostrar que esta preparado para seguir adiante. Criar um novo prêmio de rap e de hip hop e continuar o que começamos... Se o hip hop não tiver condições para fazer, então imagino que um Boy o faça e o movimento vá lá legitimar, tudo vai ser natural.

Na minha avaliação se o rap seguir o caminho que está ele se tornará um câncer para a juventude brasileira e o Hútuz, na minha avaliação, não pode contribuir com isso. Se for somente pelo dinheiro eu faço um premio de axé

Acho que antes de voltar a fazer o prêmio um dia , o Hip Hop vai ter que mostrar que cresceu , que tem responsabilidade e realmente tem compromisso com as mudanças, do contrário seremos um bando de gente falando qualquer coisa, palavrões a ermo, desrespeitando as mulheres, , agredindo os homossexuais nas saídas dos bailes e mesmo assim estaremos com um discurso afinado de uma revolução que não chegará.

Acho que é isso, existe hoje de minha parte uma certa descrença com todos os discurso do rap, com as posturas... E, se eu não acredito nesse modelo que estamos reproduzindo, então o Hutúz acaba sendo de certa maneira a celebração oficial de tudo isso.

R.N.: O Hutúz pode voltar um dia?

Celso Athayde: Sim. O Hutúz pode voltar um dia, mas o hip hop tem que mudar , e se isso não for possível, então espero que alguém crie um prêmio que possa representar esse modelo.

Fazer uma festa para premiar esses 10 anos que passamos produzindo o Hutúz me dá a sensação de que estaremos efetivamente valorizando uma quantidade de momentos importante que o prêmio viveu, que o hip hop viveu e porque não dizer, estaremos brindando momentos mágicos que esse país viveu


Reportagem: Elaine Mafra e Nanda Lopes
Entrevistas: Elaine Mafra


fonte:http://www.rapnacional.com.br/noticias.asp?id=3599